Mais uma vez sobre o mesmo. O de sempre. Numa revista com muito mais para
oferecer do que salsichas, pode-se encontrar, na página 10, mais um Golpe. Está
em todo o lado.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
A Minha Geração
Findo o caldo, saí de casa, noite quente, um quarto para as
nove. Talvez menos, porque o Rodrigues dos Santos ainda aproveitava os últimos
minutos de antena da televisão pública. De uma televisão pública. Na última
quinta, era no Fiel. Eramos só quatro. E era estranho.
Todos se conheceriam há demasiado tempo, pesando os vinte e
poucos anos que ainda se aligeiram nas pernas, não fosse não reconhecer
ninguém. Já lá não estão a Xica, nem o Rafa, nem o Toino, tão pouco o outro
anafado. As conversas mudaram. Já não incomoda as vinte páginas sobre a
Civilização Romana ou as odiosas linhas de uma perspectiva pouco cavaleira que
jamais se cruzaram no mesmo ponto. Não interessa se o Lemos come os cordões do
capuz ou, mais que tudo, se o Girão trouxe a bola.
O tom de voz é cinzento e sádico enquanto acerta
mecanicamente na carne da alma. Até rasgar a pele. Até meter dó. Só já em
sangue se permite a última estucada, “Então, e
agora?”. É um timbre odioso, putrefacto.
Nessa quinta, foi no Fiel. Fomos só quatro. E foi estranho. Aquela
sonância lúgubre escarrou à evidência mais do que me dispunha a ver. Uma
geração com quinze ou mais anos de vida hipotecados num papel de comprovativo
assinado pelo Reitor. Doutores de nada, uma troca injusta. Não pertencendo a
uma geração rasca, com tantos anos de livro, também não partilho de uma geração
à rasca. Essa é a dos nossos pais, que vão tentando com o que podem, enquanto
podem. Somos uma geração desperdiçada. Não concretizada. Uma geração por ser,
porque nunca será nada.
Imagem recolhida de http://designspiration.net/image/2059543330439/. Acedido em 13/09/2012.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Ele é Manco da Cabeça
Ele é atrasadinho. Coitado. É esforçado, bom rapaz e asseado e até vai à
missa com a avó, aos domingos, sempre de manhã, que o menino fica nervoso se
não come ao meio dia e meia hora, um quarto para a uma. É lerdinho. Cuide-o
Deus, que não vai dar Senhor. Tão pouco Doutor Engenheiro. Ai, Nossa Senhora,
que este não tem cabecinha que se molde nas ripas rijas de um banco de uma
qualquer faculdade. Uma faculdade qualquer, desde que regurgite mais uma ripa,
rija, com diploma.
É manquinho da cabeça, meu filhinho. E não foi o Senhor Doutor que disse.
Esse também é só congressos, disse a moça do balcão. Nunca está. Sempre para a
semana ou no mês seguinte. Ou lá para Novembro que a “tensãozita está óptima”. Da
EB 2,3 de Póvoa da Moita, a funcionária que fala com os tolinhos – a psicóloga?
- é que enviou uma carta para casa. Já é a segunda vez que chumba de ano e
ainda nem fez o oitavo. Caso perdido. Irremediável. Vai para talhante.
Electricista, se calhar, que o moço é atreito para os computadores.
A Pátria dá o exemplo a seguir. Do bom aluno. Sempre na primeira fila,
sempre atento, sempre pronto a acudir a qualquer requisito mais ou menos
sombrio estipulado pelo lente germânico. Ou outro qualquer, que as cadeiras são
muitas. O importante é mantermos o rumo ao sucesso trilhado nos últimos meses.
Educativo e não só. Nem que para tal se deixe alguém para trás.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Da Digestão Nojenta à CESPU.
De entre as muitas memórias de infância que
vibram de um passado gordinho pouco atreito a jogos de bola, Digestão Nojenta, um livro que
em cento e poucas páginas de letra garrafal faz mais pela compreensão das
vísceras, entranhas e dejecções que grande parte dos tratados de
gastroenterologia, é uma das mais marcantes. É pornograficamente explícito.
Descomplicado.
Das horas escanzeladas de leitura a que se
permite, o livro oferece explicações variadas sobre motivos diversos do âmbito
digestivo, desde um “dossier sobre germes mortíferos”, relacionado com
diarreias diversas, gastroenterites, possivelmente, passando por apendicites,
amigdalites e outras ites fascinantes para um garoto que o que
queria mesmo era ser médico. Médico a sério. Com poder de passear de bata,
magicamente indiferente ao movimento do corpo, como se o pano estivesse
amestrado, e dominar a sublime e delicada mágica, restrita a alguns
seleccionados, de empoleirar o estetoscópio nos ombros, inabalável, sempre
pronto para acudir a qualquer batimento menos audível. E passar receitas,
obviamente, com uma letra de escrita sonora, conhecedora, papel timbrado, tinta
preta, imperceptível se não na farmácia.
O que se aprende neste livro é simplicidade.
Devia ser de leitura obrigatória. Existem escolas médicas a mais? Existem,
segundo normas internacionais deve haver uma faculdade de medicina por
cada dois milhões de habitantes. Existem nove, em Portugal. Para
não se arruinar o investimento já feito, aumente-se o número de vagas em Faro e
em Aveiro, fazendo uma racionalização (diminuindo o total) dos numerus clausus, de forma a
resolver o problema de sobrelotação, quase claustrofóbica, das restantes
faculdades do país, aumentando a qualidade do ensino básico e garantindo a
continuidade da formação médica. Simplicidade. Que não passa por abrir mais
faculdades de medicina. Privadas ou não.
Ninguém põe em causa a qualidade da formação da
CESPU. E até há uma “coincidência muito grande do plano curricular” do curso de
Ciências Biomédicas com “os primeiros anos de qualquer curso de medicina”. Só
há um problema. Praticamente igual não é a mesma coisa que igual. Bom não é
igual a óptimo. Pode até existir uma “coincidência muito grande”, mas óptimo
nunca será igual a excelente. E excelência é o que se espera de futuros
profissionais médicos.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
A Greve dos Médicos foi uma Vergonha.
Vi-os a desfilar
pela televisão. Estavam de bata. E cartazes. E estetoscópios. Um escândalo, um
desrespeito por quem ainda confia nesta gente. Alguns nem médicos eram, meias-lecas
de gente a aquecer bancos nas faculdades, e também estavam na rua aos berros,
preocupadinhos já, os meninos, por poder não sobrar nada para eles também. Pensava
eu, estávamos num país falido. Intervencionado. Onde meio mundo está a perder
dinheiro e outro meio já o perdeu. Onde falta para pagar ao funcionalismo
público, onde milhares, os economistas por obrigação, fazem contas para chegar
ao fim do mês, onde milhares já estão no desemprego, onde milhares não têm como
sustentar os catraios, quanto mais pagar consultas, onde milhares não sabem o
que fazer da vida. Onde milhares estão desesperados. Onde milhares ainda sabem
que podem contar com o SNS. Ainda que moribundo, a dar as últimas. O garante
mínimo de saúde a todos. Onde aqueles aperaltados têm o desplante de sair à rua
lutar por privilégios adquiridos ao longo de anos. Adquiridos e pagos com o
esforço de todos, para todos.
- Desculpem, mas é preciso cortar.
A saúde, como a comida no prato e a educação dos filhos, tornou-se um privilégio
do tempo das vacas gordas. Não é para todos. É para quem paga, ao que parece. Daí,
a greve dos médicos ser uma vergonha. Teve que sair à rua toda uma classe
profissional, gritar aos pés do Ministério da Saúde, para lembrar a quem de
direito que, para cortar, que se corte onde está a mais. Nunca na saúde das
famílias. Nunca numa altura em que, mais que nunca, é preciso dar garante a quem
menos tem. E tem cada vez menos. Nunca confundindo direitos básicos com
privilégios. Nunca num estado de direito.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Ronaldo, desculpa. Do fundo do coração.
Não gostar de
ver futebol em Portugal é duro, ainda mais durante o Campeonato da Europa. Num
país em que as próprias fronteiras traçam um campo da bola gigante, as
consequências para quem não consegue apreciar um bom box to box de um gandulo em calções são várias, incisivas e
duradouras. A reprovação social traduz-se, desde logo, em questões relacionadas
com a orientação sexual. Em acordo comunitário está a estipulação imediata que
o “gajo é paneleiro”. Dependendo dos regionalismos, “rabeta”, “maricas” ou
“panisgas”, “panisguinhas” na sua forma quase paternal, são também aceitáveis. É
certo e sabido, só há dois tipos de pessoas: as que gostam de ver uma peladinha
milionária de indivíduos elevados, nem que seja por umas semanas, ao estatuto
de verdadeiras Padeiras de Aljubarrota,
com o escadeado irrepreensível e as pontinhas meticulosamente aparadas, para o
cumprimento do desígnio nacional, e “os que pegam de empurrão”. Ou doutra forma
qualquer. Como os que se amontoavam ontem à porta do Estádio Cidade de Coimbra.
Quem não
acompanha as vinte e poucas horas de antevisão de cada jogo, num verdadeiro
turbilhão mediático de análises, previsões e comentários, muitas vezes sobre
outros comentários, previsões ou análises – em algumas circunstâncias são
apenas conjecturas fundamentadas no desempenho em partidas desde tempos imemoriais,
outras, simplesmente, baseadas no facto do Ronaldo “ser mesmo muita bom” -
ganha tempo para se deparar com dois pesos e duas medidas. Uma injustiça.
Enquanto que
ao puto maravilha, começado nas lides desportivas pelo Clube Futebol Andorinha
de Stº António, se exige, muito mais que esforço ou competência, excelência em
cada toque de bola, para instituições como a Entidade Reguladora da Comunicação
Social (ERCS) a integridade nem sequer é pré-requisito. Depois de consideradas
reprováveis as pressões e ameaças do Relvas, confirmadas por múltiplos testemunhos,
a ERCS considera não haver provas irrefutáveis, indesmentíveis, inabaláveis de
tal acto e, como tal, escusa-se a divulgar uma decisão final, punitiva. A sorte
é que até se pode deixar passar incólume tamanha incompetência, afinal, nem
sequer está em jogo o título europeu de futebol.
Aqui, está o outro texto sobre o mesmo assunto.
Imagem retirada de http://www.zerozero.pt/foto.php?id=18724. Acedido a 25/06/2012.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
As Senhoras do Horta
Fina flor não pede uma jarra de vinho branco para empurrar da
goelinha civilizada uma empada de lombo de porco. Pede um cházinho frio, de
bule sem gola, ao empregado – “sempre
tão prestável, um amor de pessoa” – que às cinco horas a barriguita já pede um
peso que as bolachinhas recheadas não dão. Ficam para a Bianquinha degustar
enquanto observa os catraios na praça, para não estragar o apetite para a ceia.
O estabelecimento que, em Viseu e somente para senhoras, era
conhecido por encher os serviços de porcelana de pomada do Dão, era o Horta
que, ao fim de 140 anos a dar “quebras de tensão” às madames da Beira Interior,
fechou. Como os outros. Mesmo os menos finos. Os que não usavam eufemismos. Uma
raridade numa altura em que figuras de estilo para suavizar a realidade são uma
constante.
Ao fim de meses a repetir o mesmo – a solução para a crise do
Euro está em medidas graves de austeridade, que o novo tratado veio devolver a
confiança aos mercados e que a culpa da crise é dos países periféricos, uns
lambões – aconteceu o que não era suposto. A quarta economia europeia precisa
de cem mil milhões de euros para recapitalizar a banca. A fornecer, claro está,
que mais vale uma criança com fome que um banco falido. Mas com várias
condições! A primeira é que não se pode chamar resgate! Era uma humilhação para
um país de bem.
Claramente esta gente das europas e dos bancos nunca foi ao
Horta lanchar. Agora também vão tarde para aprender que, quer seja da bebedeira
ou do sol forte do Verão, da pipa ou da flute de cristal, no dia seguinte, a
ressaca é a mesma. Para todos.
Imagem recolhida de http://guedelhudos.blogspot.pt/2010/01/pastelaria-horta-viseu.html. Acedido em 11/06/2012.
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