quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Somos Pantufeiros.




Sabe demasiado bem. O ar é doce e terno. E cheira a bolo, o nosso bolo, aquele que nos acaricia ao chegar a casa, quando o corpo dói do frio áspero que tomou a rua como sua, mas que fica sempre à porta. Mas que fica sempre à espreita, lá fora, enquanto nos perdemos no regaço do sofá, naquele cantinho mais doce do mundo onde o leitinho é sempre mais morno e que transforma qualquer minuto vespertino no mais encantador soninho. É onde a almofada tem uma mancha de baba. É nosso. E é mais que isso. É a mãe a chamar para jantar porque há natas do céu ou as tardes passadas em casa da avó, a comer marmelada com bolachas, e bolachas, e marmelada. E é o natal, e o aperto no coração até à meia-noite, que não chega nunca, para ver os olhos do mais cachopo, e há papel por todo lado e sempre, sempre, mais um bolo-rei, mais um bolo. Sempre, mais uma aletria.

Somos caseirinhos, quentes, emotivos e, principalmente, pouco produtivos. Gostamos de robes e chinelos, que mantemos ao ir comprar pão ao Sr. Azevedo. Gostamos do pão do Sr. Azevedo e de saber se a Anita vai casar em Junho. Somos um país que não cabe em relatórios de contas porque os bigodes do avô não se moldam às células de um programa de somatório. Somos descontraídos. O que não ajuda no momento de pagar as contas. Absolutamente nada. Por isso estamos na miséria. Porque adoramos pantufas e ver a miudagem a jogar futebol ao pé da garagem. A norte dos Pirinéus não entendem, com os gráficos, tabelas e guias. Está tudo pago. Tudo a horas. E ainda bem. Vivem com contas tratadas, vivem e viverão bem. Mas são demasiado monótonos. Frios. Nós vamos sobrevivendo em família, com a família, com o cão, com o gato, o nosso e o da vizinha, com os amigos com quem, enquanto se espera pelo cabrito nos rimos mais um pouco da desgraça que é amar demasiado esta terra.

Que não venham em nome das metas do défice, seja lá o que isso for, exigir demasiado, sempre dos mesmos. Quando não houver dinheiro para ver o Benfica perder mais um campeonato com um pratinho de tremoços o caso muda de figura. Não se habituem a manifestações pacíficas. 






Imagem retirada de http://catedraldaluz.blogs.sapo.pt/5364.html. Acedido a 17/10/2012.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O CNECV não vende jornais


Imagino directores de jornais nacionais a espumar da boca, quais adolescentes solitários com o último catálogo da Intimissimi nas suas trementes mãozinhas suadas, quando um qualquer lacaio de trinta anitos, a fazer umas horinhas a recibo verde há sete, lhe vem informar que os tipos do CNECV – um órgão meramente consultivo - emitiram um parecer que de forma sumária e em linhas gerais diz qualquer coisa passível de ser interpretada como um contributo para a legitimização do corte ao acesso a medicamentos.

Nunca mais se encontrava um título com força suficiente para encaixar entre as notícias sangrentas do massacre dos poucos que ainda vivem do trabalho por um governo a que Portas e os outros fixes fingem não pertencer e a capacidade mobilizadora do Facebook que reformou os autocarros bafientos da CGTP. Ou era isto ou lá se tinha que ir buscar mais umas escutazinhas do Sócrates. Ou o facto de o Oceano ser o novo Chalana do Sporting.

Apesar da virginal indignação histérica de uma turba incrédula com a possibilidade de se “tirar certo tipo de medicamentos a certo tipo de doentes”,o documento começa por definir quais os medicamentos e quais os doentes a que se refere com o seguinte parágrafo:

“O pedido formulado por Sua Excelência o Ministro da Saúde diz respeito à  elaboração de um Parecer sobre a fundamentação ética  para o financiamento de três grupos de fármacos, a saber retrovirais para doentes VIH+, medicamentos oncológicos e medicamentos biológicos em doentes com artrite reumatoide.”

De forma simples, os tratamentos anteriores são caríssimos mas essenciais para os doentes e para um estado carente de força produtiva, devendo-se optar por fármacos com um custo-efectividade elevado, “os mais baratos dos melhores”, oferecendo-se o melhor tratamento possível ao maior número de doentes, havendo um “fundamento ético para que o Serviço Nacional de Saúde promova medidas para conter custos com medicamentos”, antes que que se materialize a sua antecipada falência.

Posto desta forma ninguém discorda. Assim faz sentido, racionalizar não é o mesmo que racionar e o que se pretende é uma justa e equilibrada distribuição de recursos. Mas desta maneira não faz notícia. Assim não vende.



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

À Procura de Diana


Foi um deslumbre do que seria. Foi por aquele misto inconsequente de aborrecimento e sadismo. Fez de propósito. Por aquele sorriso que o sangrou, incauto, bem fundo na carne. Foi num instante. Tão rápido que lhe definhou toda certeza de si e deixou-lhe a vontade dela. Agora, nem o ar se deixa respirar, nem o Sol aquece. Nem ele encontra a Diana.

Vai tropeçando, aparvalhado, atrás de nada. Ela não lhe disse que estaria lá. Nem que iria ser dele. Mas vai escrevendo, enquanto grita, porque ele já lhe pertence. Enquanto se humilha nas redes sociais. Enquanto vai estampando páginas de jornal. Enquanto eleva o nome dela o mais alto que pode. Enquanto ela não vem. Nunca virá. Como uma sombra. Por mais que corra, estará sempre a um passo mais de distância. Ali ao pé, desesperadamente longe.


Ele corre, como eu corro. Como nós saímos de casa. Como muitos outros berram com fachas e punhos na rua. Por esperança. Nele cabe um país inteiro que, por comparação, não sabia que estava mal até ela – a Europa, não a Diana – lhe cuspir que estava. Agora sacrifica-se por ela. Sacrifica-se tudo. Para ele valerá a pena, mesmo dilacerado, mesmo sem a Diana, haverá sempre raparigas que entre as últimas noites de Verão fogem na multidão do Bairro Alto. E para nós, valerá a pena?







Imagem retirada da Comunidade À Procura de Diana. Localizada em https://www.facebook.com/photo.php?fbid=420691831327246&set=a.417228515006911.101089.417224098340686&type=3&theater. Acedido a 26/09/2012.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A Grande Fábrica de Salsichas, in aNEMia



Mais uma vez sobre o mesmo. O de sempre. Numa revista com muito mais para oferecer do que salsichas, pode-se encontrar, na página 10, mais um Golpe. Está em todo o lado. 








Mais do mesmo pode ser visto no lugar do costume. A qualquer hora.




quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Minha Geração


Findo o caldo, saí de casa, noite quente, um quarto para as nove. Talvez menos, porque o Rodrigues dos Santos ainda aproveitava os últimos minutos de antena da televisão pública. De uma televisão pública. Na última quinta, era no Fiel. Eramos só quatro. E era estranho.

Todos se conheceriam há demasiado tempo, pesando os vinte e poucos anos que ainda se aligeiram nas pernas, não fosse não reconhecer ninguém. Já lá não estão a Xica, nem o Rafa, nem o Toino, tão pouco o outro anafado. As conversas mudaram. Já não incomoda as vinte páginas sobre a Civilização Romana ou as odiosas linhas de uma perspectiva pouco cavaleira que jamais se cruzaram no mesmo ponto. Não interessa se o Lemos come os cordões do capuz ou, mais que tudo, se o Girão trouxe a bola.

O tom de voz é cinzento e sádico enquanto acerta mecanicamente na carne da alma. Até rasgar a pele. Até meter dó. Só já em sangue se permite a última estucada, “Então, e agora?”. É um timbre odioso, putrefacto.

Nessa quinta, foi no Fiel. Fomos só quatro. E foi estranho. Aquela sonância lúgubre escarrou à evidência mais do que me dispunha a ver. Uma geração com quinze ou mais anos de vida hipotecados num papel de comprovativo assinado pelo Reitor. Doutores de nada, uma troca injusta. Não pertencendo a uma geração rasca, com tantos anos de livro, também não partilho de uma geração à rasca. Essa é a dos nossos pais, que vão tentando com o que podem, enquanto podem. Somos uma geração desperdiçada. Não concretizada. Uma geração por ser, porque nunca será nada.






Imagem recolhida de http://designspiration.net/image/2059543330439/. Acedido em 13/09/2012.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ele é Manco da Cabeça


Ele é atrasadinho. Coitado. É esforçado, bom rapaz e asseado e até vai à missa com a avó, aos domingos, sempre de manhã, que o menino fica nervoso se não come ao meio dia e meia hora, um quarto para a uma. É lerdinho. Cuide-o Deus, que não vai dar Senhor. Tão pouco Doutor Engenheiro. Ai, Nossa Senhora, que este não tem cabecinha que se molde nas ripas rijas de um banco de uma qualquer faculdade. Uma faculdade qualquer, desde que regurgite mais uma ripa, rija, com diploma.

É manquinho da cabeça, meu filhinho. E não foi o Senhor Doutor que disse. Esse também é só congressos, disse a moça do balcão. Nunca está. Sempre para a semana ou no mês seguinte. Ou lá para Novembro que a “tensãozita está óptima”. Da EB 2,3 de Póvoa da Moita, a funcionária que fala com os tolinhos – a psicóloga? - é que enviou uma carta para casa. Já é a segunda vez que chumba de ano e ainda nem fez o oitavo. Caso perdido. Irremediável. Vai para talhante. Electricista, se calhar, que o moço é atreito para os computadores.

A Pátria dá o exemplo a seguir. Do bom aluno. Sempre na primeira fila, sempre atento, sempre pronto a acudir a qualquer requisito mais ou menos sombrio estipulado pelo lente germânico. Ou outro qualquer, que as cadeiras são muitas. O importante é mantermos o rumo ao sucesso trilhado nos últimos meses. Educativo e não só. Nem que para tal se deixe alguém para trás.






quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Da Digestão Nojenta à CESPU.



De entre as muitas memórias de infância que vibram de um passado gordinho pouco atreito a jogos de bola, Digestão Nojenta, um livro que em cento e poucas páginas de letra garrafal faz mais pela compreensão das vísceras, entranhas e dejecções que grande parte dos tratados de gastroenterologia, é uma das mais marcantes. É pornograficamente explícito. Descomplicado.


Das horas escanzeladas de leitura a que se permite, o livro oferece explicações variadas sobre motivos diversos do âmbito digestivo, desde um “dossier sobre germes mortíferos”, relacionado com diarreias diversas, gastroenterites, possivelmente, passando por apendicites, amigdalites e outras ites fascinantes para um garoto que o que queria mesmo era ser médico. Médico a sério. Com poder de passear de bata, magicamente indiferente ao movimento do corpo, como se o pano estivesse amestrado, e dominar a sublime e delicada mágica, restrita a alguns seleccionados, de empoleirar o estetoscópio nos ombros, inabalável, sempre pronto para acudir a qualquer batimento menos audível. E passar receitas, obviamente, com uma letra de escrita sonora, conhecedora, papel timbrado, tinta preta, imperceptível se não na farmácia.


O que se aprende neste livro é simplicidade. Devia ser de leitura obrigatória. Existem escolas médicas a mais? Existem, segundo normas internacionais  deve haver uma faculdade de medicina por cada dois milhões de habitantes. Existem nove, em Portugal. Para não se arruinar o investimento já feito, aumente-se o número de vagas em Faro e em Aveiro, fazendo uma racionalização (diminuindo o total) dos numerus clausus, de forma a resolver o problema de sobrelotação, quase claustrofóbica, das restantes faculdades do país, aumentando a qualidade do ensino básico e garantindo a continuidade da formação médica. Simplicidade. Que não passa por abrir mais faculdades de medicina. Privadas ou não.


Ninguém põe em causa a qualidade da formação da CESPU. E até há uma “coincidência muito grande do plano curricular” do curso de Ciências Biomédicas com “os primeiros anos de qualquer curso de medicina”. Só há um problema. Praticamente igual não é a mesma coisa que igual. Bom não é igual a óptimo. Pode até existir uma “coincidência muito grande”, mas óptimo nunca será igual a excelente. E excelência é o que se espera de futuros profissionais médicos.