sábado, 5 de janeiro de 2013

Estamos Parados


Parado. Quieto, sentado, encolhido ao esperar no cinzento húmido da manhã, talvez venha. Ou não. A esta hora faz tempo, tornou-se indiferente confirmar clemente a vontade do sádico relógio da estação, que força todos à sua vontade, que os amordaça no atraso. Impondo falta, mesmo sem culpa, mesmo com o cansaço de um corpo batido pelo frio da madrugada.

Parado, ainda. Não virá. Estão de greve esta semana. Também ele deveria. Com dinheiros a haver desde há uns meses largos, que chegariam depois de natal, e até à passagem de ano, e, agora, em conjunto com os trocos de Fevereiro. Se chegarem até lá. Ele, por chegar constantemente atrasado, a empresa, por não ter como receber por trabalho não efectuado por ele e todos os restantes que estão parados, ainda. Porque outros estão de greve esta semana. Com ou sem razão, estamos todos parados. Outra vez.

- A CP informa que, por motivo de greve convocada por diversas Organizações Sindicais, se prevê que possam ocorrer entre 2 e 31 de Janeiro algumas perturbações e supressões nos serviços Urbanos…






segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A Passagem de Ano


Talvez. Porque são sempre certezas, até deixarem de ser. Até lhe ferverem cáusticas e pútridas no corpo, as certezas, que tinha, que o deixaram de ser. Talvez. Talvez tentando mais uma vez, outra vez, porque nas vezes anteriores mais que arte e destreza, faltou-lhe fé, em si, que esbanjou ao desbarato, em outros, que a sugaram de forma canibal e o arrastaram para o canto do bar. Sozinho.

Finalmente, chegou. Carnal, cruel, que o fez engolir em seco todos os planos que gatafunhara mentalmente ao namorar com a imperial meia morta. Nem o viu, cercada por cem outros tão mais rápidos que ele. Sem interesse, os cem, ficariam a gravitar, sem sentido, na trágica indiferença dela.

Se o visse, nada mudaria. Porventura, um aceno indolente. Tão pálido, hipnotizante e azul como aquele que conduz mosquinhas deambulantes, ingénuas, para uma morte eléctrica, à frente de todos, ignorada.

Doentio, o que ansiava esse olhar, que lhe desse uma razão. Uma desculpa para se libertar de si, aspirado para ela, para o seu sorriso, para o seu regaço.

Estava quase tão bêbado como tantos outros que ali se costumam deixar morrer pouco a pouco. Foi até ela. Transpirado e ofegante cruzou todo aquele antro, que ele só não odiava mais pela possibilidade de a encontrar, chegou, olhou-a, ignorando todas as restantes que se riam com ela.

- Olá.

- Olá.

- Nunca te tinha visto aqui. Posso-te convidar para beber qualquer coisa?

- Não.

Não fossem as colunas de som debitarem milhares de decibeis de surdez, vibrando, ondulantes, pelas carnes, ouvir-se-ia o silêncio dele, enquanto gritava mudo de vergonha. Para que tentara outra vez? Porque o ano mudara? Apercebeu-se, não interessa ter sido antes da meia-noite. A passagem de ano são os últimos dez segundos do calendário. O essencial, o concreto, a luta do dia-a-dia, mantém-se. A vida não recomeça, continua amanhã depois da ressaca.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Amanhã, o que ficará para trás?


- “Merda. Esqueci-me das bolachas. Mas agora estou no meio da fila. Mas agora também não vou sair daqui, para voltar lá para fundo-mesmo-ao-pé-das-batatas-fritas.  Merda. Quem me mandou vir a esta hora? Esqueci-me das bolachas, que raio vou comer de manhã, à pressa, atrasado para as aulas, a correr para as aulas, atrasado. Sempre, invariavelmente, a correr para aqui, ou para ali, ou para aulas. Merda, preciso das bolachas.”

Talvez se não estivesse mesmo à minha frente, nem repararia. Entretido a lamentar-me da minha memória de sempre, da falta dela, enquanto ele estava ali. E é parecido comigo, o pequeno, quando eu era pequeno. Anafado. Com bochechas cor-de-rosa fiambre. De certeza que quer ser cientista. De certeza que vai à baliza nos jogos de bola, mesmo não querendo. De certeza que gosta de banana com bolacha, de banana, com demasiada bolacha. De certeza que queria um daqueles pacotes de M&Ms amarelos que se exibe pornograficamente ao pé da máquina registadora, para compensar umas quaisquer duas horas de frases coordenadas e subordinadas, monocórdicas aulas de português.

Estava ao pé da mãe. Que ao contrário de mim se tinha lembrado, para além da carne, do arroz e da fruta, de levar uma caixa com uma meia dúzia de uns quaisquer pedaços de mau caminho de manteiga. Com chocolate.

Nada o fazia esperar. Foi uma agressividade. Um nojo. Execrável, sem piedade. Sem alma. A mãe, envergonhada, não tinha dinheiro para a caixita de bolos. “Pode ir levantar dinheiro ali atrás, ao pé dos cacifos”, “Pois… não vou poder, ficam as roscas”. Foi automático. Instantaneamente, os olhos encheram-se quase até ao máximo, prontos a rebentar, mesmo no limite do suportável, ao mesmo tempo que se agarrou a ela e num aperto de mão mudo, quase tão calado como o choro que não existiu, quase tão silencioso como a vergonha da mãe, foram embora os dois. Desta vez, ficou a sobremesa. Amanhã, o que ficará para trás?



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Amigos do Facebook


Entre as luzes que se estalam na cara e o cegam durante demasiado tempo, ele viu-a. Mesmo de olhos fechados. Mesmo a lacrimejar compulsivamente. Desmesuradamente. Porque a mesma mortalha, ponta de cigarro, que mutila em brasa a carne incauta, seguindo-se o tal: “Desculpa, estás bem? Ah? Não ouvi. ESTÁS BEM? Sim, sim…claro.”, escarra um fumo odioso que empala os olhos bem até ao nervo. Por sorte, o mesmo povo que defeca alto fumaça, disfarça-a com o melhor perfume. Tocante a preocupação. Tocante o cheiro.

Aventurou-se até ela. Entre cotovelos, fios de cerveja que teimam fazer-se escorrer até ao mais íntimo de si, gelando o que não era suposto, e abanões, e matulões-que-não-dão-um-passo-porque-isso-é-uma-afronta-à-sua-virilidade. Não era digna de tamanha provação. Não era tão interessante como na Foto de Perfil. Talvez nem valesse a pena. Talvez noutra perspectiva. Talvez fosse da luz. Talvez porque a maquilhagem desistira após horas agarrada a marcas de unhadas e concentrados de pús. Talvez, principalmente, porque o decote ao vivo era menor.

Balbuciaram nada. Gritaram à surdez imposta pelas colunas de som. Até ela ir embora. Até ele ouvir: “Encontra-me no Face”. Encontrou. Agora são amigos. Oficialmente. Ele os restantes quatrocentos que viram o mesmo decote. Durante meses, religiosamente, gostou de cada música, comentou cada foto com agilidade e arte camonianas, “Devias ser modelo. Linda!”, desejou que ela reparasse nos “Gostos” estratégicos nas páginas da Katy Perry, numa qualquer loja de cupcakes cor-de-rosa e no Alfaiate Lisboeta.
 
Meses agarrado ao computador. Para nada. Nem se dignou a um aceno. Uma agnição da sua existência. Não o reconheceu, quando passou. Para ela, ele é apenas o tipo com a foto do Carrera amarelo. Não se conhecem. Não se falam. Mas ele sabe que ela vai ao concerto em Novembro. E sabe com quem. Enquanto ela passa distraída, ele vai sabendo de tudo.




Imagem retirada de http://www.johnhaydon.com/2009/04/facebook-groups-pages-tips/. Acedido em 22/11/2012.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O Sr. Freitas teve um enfarte.


Aqui a atrasado, foi por tosse. E foi por febre. Prostração e dor no peito durante a semana anterior. Foi por doença grave e pelo mimo característico de um primogénito beirão, herdeiro de nome sem graveto, habituado a mamãs e vovós, e “coitadinho do meu menino” e “espera que já vamos ao doutor”. Por vezes, uma expectoração verde-ranho dava um ar da sua graça, pavoneando-se, toda séptica, brônquio acima, brônquio abaixo. Tinha tudo e mais o que se inventasse e fui às urgências.

Não demorou muito até ser auscultado e picado e radiografado e “é só mais um segundinho” e “desculpe, tenho mesmo de atender esta chamada”, numa dança que demorou apenas o suficiente para dois dedos de conversa com o Sr. Freitas. Mesmo entre sondas, gazes e tubos percebi que nos encontrámos ali por “um apertão rijo no peito”. Agora estava bem, desde que a Enfermeira não lhe voltasse a tentar enfiar a sonda narina acima. Nunca vira ninguém tão piúrço com um tubo metido focinho adentro.

Na verdade, não prestei muita atenção à conversa de circunstância até que o antigo empreiteiro se saiu com um desabafo. Áspero. “Isto há vinte, vinte e cinco anos, vinha dinheiro de fora, construía-se, havia sempre emprego na construção. O dinheiro não era nosso, mas metia-se nos pavilhões das juntas, nas rotundas e nas casas do povo aqui e ali.” Acrescentou: “quando estávamos mais apertados era só meter uns homens num pavimento de auto-estrada e fazia-se o mês”.

O Sr. Freitas sabe bem que foi uma economia baseada no betão que nos conduziu aqui, hoje. Sabe bem que agora não há dinheiro para construir. Não há economia. Porque também não há indústria, nem agricultura, nem pesca. Ao menos, nem tudo são más notícias. Eu já não tenho tosse, o Sr. Freitas teve alta.




Imagem retirada de http://4olhosxd.blogspot.pt/2009/01/notcia-utilizao-dos-antibiticos-no.html. Acedido em 14/11/2012.

sábado, 3 de novembro de 2012

O Nalguedo da Gabriela


Não me lembro do dia, nem tal seria essencial, tão pouco de como chegou a conversa àquele ponto. Àquele tema. A estupefação foi tanta que as minhas maneirinhas potencialidades intelectuais permitiram-se reter uma única frase. Cinco palavras. Nem o locutor, tão pouco o local. “A Juliana Paes tem celulite”. Sabido que a discussão de pêlos, borbulhas, gordura e demais pregas afins com deficitárias cromossómicas Y é um lodaçal ingrato cujo resultado nunca é favorável para o género viril, incauto, apesar de avisado, caí no erro de me juntar à desinteligência sobre o glorioso traseiro da carioca.

                De forma geral falava-se da Gabriela. A novela. Onde a substituição de uma saloia distintíssima, Sónia Braga, por uma voluptuosa morena com cara de menina veio contribuir para renovar de súbito o interesse pelo trabalho de Jorge Amado, apesar de adaptado para acirrar o mais animalesco e suado dos sentidos.

Como, infelizmente, não sigo a patranha, dediquei-me a procurar a cena alvo de análise anatómica no Youtube. Uma missão profunda e exclusivamente antropológica. Método empírico, em que, finda a devida e seríssima análise, concluí a existência da tal gordurazinha localizada. Gordurazinha boa ou má? Estética ou um nojo? Para cortar ou exibir com orgulho?

Esse parece ser o principal problema da gordura, nos dias correm. Poucos se entendem sobre: a) a sua real existência ; b) a sua correcta localização; c) métodos para cortar a que está a mais; e principalmente; d) qual está a mais.

É a questão “d” que deverá suscitar mais dúvidas. Simplificando, banhinhas repugnantes, escandalizantes, como privatizações duvidosas, por exemplo, o caso BPN que conta já com nove mil milhões enterrados em processos incertos, ao que se acrescenta as centenas de assessores, a infinidade de institutos, organismos e fundações, com as respetivas benesses, as reformas milionárias dos altos serventes públicos, entre outras, são para abater. Outras, adiposidades estruturantes e necessárias para untar o tecido social, devem ser protegidas, acarinhadas. Prestações sociais, serviços públicos como transporte, educação e saúde, rendimentos mínimos, apoio às artes e investigação. É chicha fundamental, faz falta.

Há um problema. A forma mais difícil, demorada e eficaz de cortar a adiposidade seria uma lipoaspiração radical nos institutos, organismos e fundações. Particularmente os de alçada local. Efeito secundário? O despedimento de centenas de pessoas que o Governo, numa situação frágil como a actual, não poderia suportar. Leva antes 50% de tudo o que cada um produz, corta nas pensões e subsídios. Corta na gordura estrutural. Essencial. Porque é mais fácil. Rápido. A verdadeira celulite, essa, fica cá toda.








Imagem retirada de http://blogdewilliamporto.zip.net/arch2012-06-01_2012-06-30.html. Acedido em 03/11/2012.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Não Acreditação do M.I.M. da U.A.




Existem escolas médicas a mais? Existem, segundo normas internacionais  deve haver uma faculdade de medicina por cada dois milhões de habitantes. Existem nove, em Portugal. Para não se arruinar o investimento já feito, aumente-se o número de vagas em Faro e em Aveiro, fazendo uma racionalização (diminuindo o total) do numerus clausus, de forma a resolver o problema de sobrelotação, quase claustrofóbica, das restantes faculdades do país, aumentando a qualidade do ensino básico e garantindo a continuidade da formação médica. Simplicidade. Que não passa por abrir mais faculdades de medicina. Privadas ou não. 


O tema não é novo. Aliás, a incapacidade da elite portuguesa – lisboeta? – fazer uma gestão adequada dos recursos públicos, roçando já o patológico, o cancerígeno, é um habitué que adocica sarcasticamente os dias mais sombrios de inverno na Pastelaria Vénus ao virar, mecanicamente, as páginas do periódico salpicadas de leite.

“Ai, ai, lá estás tu a ser do contra”, exaltam os guardiões do optimismo, boa-disposição e demais póneis envoltos em arco-íris, enquanto me dedico a abrir a página da U.A., onde se informa sobre “a não abertura de vagas para o próximo ano 2012/2013”. O porquê espraia-se no site da A3ES, que rejeitou a acreditação do MIM da U.A. “Então, não era isso que tu querias, a racionalização do número total de escolas médicas?”, vociferam os espertinhos que gostam de manter um odioso histórico de conversas. Não, não era. Em particular quando a Comissão de Avaliação Externa, segundo um comunicado da ANEM, recomenda a descontinuação do curso em Julho de 2012. Uma vergonha.

Não é comentável a leviandade política que permite, contra a opinião de quadros de especialistas reunidos (e pagos) para o efeito, com o parecer desfavorável (repetido variadíssimas vezes) da Ordem dos Médicos, com o alerta desesperado da ANEM, com total desinteresse pela qualidade da formação médica básica e programas de especialidade, a abertura de um curso para cumprir o mais reles dos objectivos. O populismo fácil.

Não é comentável, não é compreensível o desprezo com o futuro de jovens brilhantes, 38 de um conjunto de 1000 candidatos. Licenciados. Melhor sorte tiveram os restantes 962.