Vazio. Mais que o olhar, apagado, no branco esquálido de um quadro que
devia estar a ser copiado para o caderno, caso a caneta não pesasse um absurdo,
caso a cabeça não estivesse mais vazia que o olhar. O mesmo que escondeu da mãe
ao correr de casa. O mesmo que a mãe não lhe mostrou porque não tinha coragem.
Porque à parte do olhar, nada mais tinha para ele nessa manhã. Nada. A não ser a
vergonha estampada na cara. A impotência que entorpece o corpo, que a obriga a
aceitar o inaceitável. Que a leva a considerar que mais vale umas horas com
fome na escola, que uns dias, passados a horas lentas, com fome em casa.
Talvez se realmente existisse, ninguém se aperceberia. A invisibilidade
da última fila, que, irónica, finge esconder quem não quer ser visto, de quem
vê tudo. De quem deixa passar, também por ironia, uns sussurros durante um
teste. De quem não pode deixar de ouvir a agonia daquele olhar vazio lá no fundo
da sala, mesmo estando de costas, ao traçar uns rabiscos tornados demasiado
insignificantes, por quem não os consegue ler.
Agora, poderá ir ao bar, todas
as manhãs. Por uma caridadezinha odiosa, pérfida, de quem acha que conduzir
criancinhas pela mão para uma côdea branca e um copo de leite é uma revolução
no apoio social das famílias, nada comparável com as filas de esfomeados nos
países de terceiro mundo, aos quais só não pertencemos, estritamente, por
motivos geográficos. Essas crianças não têm irmãos com fome? E pais com fome? Famílias
inteiras com fome, cujos miúdos são apenas o reflexo visível, a ponta do
iceberg.
Apoio social não é
caridadezinha. É garantir empregos. É baixar impostos, para garantir empregos.
É, se tal for preciso, deixar falir bancos, para investir o dinheiro onde
interessa, para baixar impostos, para garantir empregos. É, simplesmente, ter
consciência.




