domingo, 20 de janeiro de 2013

Uma Caridadezinha Nojenta


Vazio. Mais que o olhar, apagado, no branco esquálido de um quadro que devia estar a ser copiado para o caderno, caso a caneta não pesasse um absurdo, caso a cabeça não estivesse mais vazia que o olhar. O mesmo que escondeu da mãe ao correr de casa. O mesmo que a mãe não lhe mostrou porque não tinha coragem. Porque à parte do olhar, nada mais tinha para ele nessa manhã. Nada. A não ser a vergonha estampada na cara. A impotência que entorpece o corpo, que a obriga a aceitar o inaceitável. Que a leva a considerar que mais vale umas horas com fome na escola, que uns dias, passados a horas lentas, com fome em casa.

Talvez se realmente existisse, ninguém se aperceberia. A invisibilidade da última fila, que, irónica, finge esconder quem não quer ser visto, de quem vê tudo. De quem deixa passar, também por ironia, uns sussurros durante um teste. De quem não pode deixar de ouvir a agonia daquele olhar vazio lá no fundo da sala, mesmo estando de costas, ao traçar uns rabiscos tornados demasiado insignificantes, por quem não os consegue ler.

                Agora, poderá ir ao bar, todas as manhãs. Por uma caridadezinha odiosa, pérfida, de quem acha que conduzir criancinhas pela mão para uma côdea branca e um copo de leite é uma revolução no apoio social das famílias, nada comparável com as filas de esfomeados nos países de terceiro mundo, aos quais só não pertencemos, estritamente, por motivos geográficos. Essas crianças não têm irmãos com fome? E pais com fome? Famílias inteiras com fome, cujos miúdos são apenas o reflexo visível, a ponta do iceberg.

                Apoio social não é caridadezinha. É garantir empregos. É baixar impostos, para garantir empregos. É, se tal for preciso, deixar falir bancos, para investir o dinheiro onde interessa, para baixar impostos, para garantir empregos. É, simplesmente, ter consciência.



sábado, 19 de janeiro de 2013

Os Golpes Mais Vistosos de 2012































quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A Casa de Alterne


O óleo da pele permitia o deslizar obsceno das gotículas de um suor malcheiroso que corriam pela barba até à gola, amarela-surro, de uma camisa pouco branca, pouco limpa. Estava ao balcão, mais que húmido, transpirado, de veludo cor-de-vinho, cor de pejo. Cor de nojo ao sair, quando saísse, que já não era o relógio que mandava, era a vontade do corpo, era a vergonha da cara, horas sentado, desperdiçadas ao bater de cada minuto longe de casa, escondido dos olhos castanhos de uma filha sem sono, com fome, de uma mulher com raiva, sem esperança. Ali, ao menos, olhavam-no com um sorriso, ainda que pago com notas que saíam a demasiado custo de uma carteira vazia, pelo menos até ao whisky começar a fazer efeito, pelo menos até a miúda passar a ser mais um corpo nu, tonificado por noites de palco, por noites de colo, por noites de choro, pelo menos até ser de manhã.

Deixaram-no entrar porque sabiam que ali deixaria o que não tem, o que inventa para comprar tempo longe de si. Sabem que de tudo o que ele deixar, contribuem com uma ninharia, porque segundo quem percebe os “espectáculos eróticos são de cariz artístico e que por isso o IVA deve ser cobrado à taxa reduzida”. É um facto, comparando a leviandade pornográfica de um governo que prefere condenar à miséria quem trabalha, continuando a descobrir dinheiro para privatizar bancos, para nacionalizar dívida, com um par de nádegas vendidas por desespero, leiloadas ao desbarato, o nojo torna-se bem mais suportável.











segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Blogs do Ano 2012 - Aventar



Os resultados do nosso blog no concurso Blogs do Ano 2012, da Aventar:


·         Na categoria Actualidade política – blog individual (29 inscritos)

8ª Posição

·         Na categoria Blog Revelação 2012 (189 inscritos)

16ª Posição

·         Na categoria Blogger do Ano (298 inscritos)

35ª Posição


    A gerência agradece imenso os votos submetidos. Não apenas pelo tempo gasto, segundo a segundo, clique a clique, para os fazer contar na urna virtual, mas pelo apoio, na maior parte dos casos incondicional, que irradia de quem passou os últimos dias a correr para uns links de natureza duvidosa, para preencher umas bolinhas furtivas, escondidas num mar de outros blogs, que até poderiam ser (ou não, definitivamente não), melhores que este nosso favorito.

     Muito Obrigado.












sábado, 5 de janeiro de 2013

Estamos Parados


Parado. Quieto, sentado, encolhido ao esperar no cinzento húmido da manhã, talvez venha. Ou não. A esta hora faz tempo, tornou-se indiferente confirmar clemente a vontade do sádico relógio da estação, que força todos à sua vontade, que os amordaça no atraso. Impondo falta, mesmo sem culpa, mesmo com o cansaço de um corpo batido pelo frio da madrugada.

Parado, ainda. Não virá. Estão de greve esta semana. Também ele deveria. Com dinheiros a haver desde há uns meses largos, que chegariam depois de natal, e até à passagem de ano, e, agora, em conjunto com os trocos de Fevereiro. Se chegarem até lá. Ele, por chegar constantemente atrasado, a empresa, por não ter como receber por trabalho não efectuado por ele e todos os restantes que estão parados, ainda. Porque outros estão de greve esta semana. Com ou sem razão, estamos todos parados. Outra vez.

- A CP informa que, por motivo de greve convocada por diversas Organizações Sindicais, se prevê que possam ocorrer entre 2 e 31 de Janeiro algumas perturbações e supressões nos serviços Urbanos…






segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A Passagem de Ano


Talvez. Porque são sempre certezas, até deixarem de ser. Até lhe ferverem cáusticas e pútridas no corpo, as certezas, que tinha, que o deixaram de ser. Talvez. Talvez tentando mais uma vez, outra vez, porque nas vezes anteriores mais que arte e destreza, faltou-lhe fé, em si, que esbanjou ao desbarato, em outros, que a sugaram de forma canibal e o arrastaram para o canto do bar. Sozinho.

Finalmente, chegou. Carnal, cruel, que o fez engolir em seco todos os planos que gatafunhara mentalmente ao namorar com a imperial meia morta. Nem o viu, cercada por cem outros tão mais rápidos que ele. Sem interesse, os cem, ficariam a gravitar, sem sentido, na trágica indiferença dela.

Se o visse, nada mudaria. Porventura, um aceno indolente. Tão pálido, hipnotizante e azul como aquele que conduz mosquinhas deambulantes, ingénuas, para uma morte eléctrica, à frente de todos, ignorada.

Doentio, o que ansiava esse olhar, que lhe desse uma razão. Uma desculpa para se libertar de si, aspirado para ela, para o seu sorriso, para o seu regaço.

Estava quase tão bêbado como tantos outros que ali se costumam deixar morrer pouco a pouco. Foi até ela. Transpirado e ofegante cruzou todo aquele antro, que ele só não odiava mais pela possibilidade de a encontrar, chegou, olhou-a, ignorando todas as restantes que se riam com ela.

- Olá.

- Olá.

- Nunca te tinha visto aqui. Posso-te convidar para beber qualquer coisa?

- Não.

Não fossem as colunas de som debitarem milhares de decibeis de surdez, vibrando, ondulantes, pelas carnes, ouvir-se-ia o silêncio dele, enquanto gritava mudo de vergonha. Para que tentara outra vez? Porque o ano mudara? Apercebeu-se, não interessa ter sido antes da meia-noite. A passagem de ano são os últimos dez segundos do calendário. O essencial, o concreto, a luta do dia-a-dia, mantém-se. A vida não recomeça, continua amanhã depois da ressaca.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Amanhã, o que ficará para trás?


- “Merda. Esqueci-me das bolachas. Mas agora estou no meio da fila. Mas agora também não vou sair daqui, para voltar lá para fundo-mesmo-ao-pé-das-batatas-fritas.  Merda. Quem me mandou vir a esta hora? Esqueci-me das bolachas, que raio vou comer de manhã, à pressa, atrasado para as aulas, a correr para as aulas, atrasado. Sempre, invariavelmente, a correr para aqui, ou para ali, ou para aulas. Merda, preciso das bolachas.”

Talvez se não estivesse mesmo à minha frente, nem repararia. Entretido a lamentar-me da minha memória de sempre, da falta dela, enquanto ele estava ali. E é parecido comigo, o pequeno, quando eu era pequeno. Anafado. Com bochechas cor-de-rosa fiambre. De certeza que quer ser cientista. De certeza que vai à baliza nos jogos de bola, mesmo não querendo. De certeza que gosta de banana com bolacha, de banana, com demasiada bolacha. De certeza que queria um daqueles pacotes de M&Ms amarelos que se exibe pornograficamente ao pé da máquina registadora, para compensar umas quaisquer duas horas de frases coordenadas e subordinadas, monocórdicas aulas de português.

Estava ao pé da mãe. Que ao contrário de mim se tinha lembrado, para além da carne, do arroz e da fruta, de levar uma caixa com uma meia dúzia de uns quaisquer pedaços de mau caminho de manteiga. Com chocolate.

Nada o fazia esperar. Foi uma agressividade. Um nojo. Execrável, sem piedade. Sem alma. A mãe, envergonhada, não tinha dinheiro para a caixita de bolos. “Pode ir levantar dinheiro ali atrás, ao pé dos cacifos”, “Pois… não vou poder, ficam as roscas”. Foi automático. Instantaneamente, os olhos encheram-se quase até ao máximo, prontos a rebentar, mesmo no limite do suportável, ao mesmo tempo que se agarrou a ela e num aperto de mão mudo, quase tão calado como o choro que não existiu, quase tão silencioso como a vergonha da mãe, foram embora os dois. Desta vez, ficou a sobremesa. Amanhã, o que ficará para trás?