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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A Casa de Alterne


O óleo da pele permitia o deslizar obsceno das gotículas de um suor malcheiroso que corriam pela barba até à gola, amarela-surro, de uma camisa pouco branca, pouco limpa. Estava ao balcão, mais que húmido, transpirado, de veludo cor-de-vinho, cor de pejo. Cor de nojo ao sair, quando saísse, que já não era o relógio que mandava, era a vontade do corpo, era a vergonha da cara, horas sentado, desperdiçadas ao bater de cada minuto longe de casa, escondido dos olhos castanhos de uma filha sem sono, com fome, de uma mulher com raiva, sem esperança. Ali, ao menos, olhavam-no com um sorriso, ainda que pago com notas que saíam a demasiado custo de uma carteira vazia, pelo menos até ao whisky começar a fazer efeito, pelo menos até a miúda passar a ser mais um corpo nu, tonificado por noites de palco, por noites de colo, por noites de choro, pelo menos até ser de manhã.

Deixaram-no entrar porque sabiam que ali deixaria o que não tem, o que inventa para comprar tempo longe de si. Sabem que de tudo o que ele deixar, contribuem com uma ninharia, porque segundo quem percebe os “espectáculos eróticos são de cariz artístico e que por isso o IVA deve ser cobrado à taxa reduzida”. É um facto, comparando a leviandade pornográfica de um governo que prefere condenar à miséria quem trabalha, continuando a descobrir dinheiro para privatizar bancos, para nacionalizar dívida, com um par de nádegas vendidas por desespero, leiloadas ao desbarato, o nojo torna-se bem mais suportável.











segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Grande Porco




Podia, mas não. Não o ouvi da minha avó. Ouvi outras frases, mas não esta. Não que a Senhora não tenha sapiência para tal erudição, simplesmente é uma verdade incómoda. Desde sempre. Ainda o macaco estava a deixar de o ser e o primeiro homem começava a juntar javalis em cercas e já se sabia:


- “A melhor espiga é para o pior porco.”


É imperativo engordar o porco, a qualquer custo. Um mau suíno é aquele que não cumpre o seu desígnio. Encher o bandulho à larga, constituindo bem as carnes, para depois ser comido. Ponto final. Nasce bacorinho, fofinho, rosinha e meio parvo, finda chouriço, feijoada, costeleta ou aquilo que a patroa quiser fazer antes da novela. 

Se o bicho não cresce direito, só há uma solução: abrir os cordões à bolsa e deixar o farelo de lado. Sai caro. E já não é de agora. Grunhos com manias de senhor já por aí andam há imenso tempo. E quanto mais se adia a matança, mais o pessoal se afeiçoa ao bicho, mesmo com caprichos. E vai-se envolvendo na lama, entretido. E vai comendo.


Quando o porco deixa de ser leitãozinho e passa a ser um macróbio incontinente com cheiro a ranço velho é que o caseiro se lembra que não o matou. Normalmente, já vai tarde. Exemplo? Na Madeira só agora se aperceberam daquilo que já há muito se sabia. Nova auditoria do Tribunal de Contas, mais facturas de muitos milhões em atraso.


 Agora é que querem apresentar moções de censura? Agora é que querem a matança? Agora vão tarde. Que o afastem. Que o esqueçam. Mas que partilhem a culpa do estado em que estão. Mais culpado que o porco que fez o que sabia é quem o deixou chafurdar uma vida.



Imagem retirada de http://www.opresenterural.com.br/caderno.php?c=5&m=29. Acedido em 28/05/2012.