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domingo, 20 de janeiro de 2013

Uma Caridadezinha Nojenta


Vazio. Mais que o olhar, apagado, no branco esquálido de um quadro que devia estar a ser copiado para o caderno, caso a caneta não pesasse um absurdo, caso a cabeça não estivesse mais vazia que o olhar. O mesmo que escondeu da mãe ao correr de casa. O mesmo que a mãe não lhe mostrou porque não tinha coragem. Porque à parte do olhar, nada mais tinha para ele nessa manhã. Nada. A não ser a vergonha estampada na cara. A impotência que entorpece o corpo, que a obriga a aceitar o inaceitável. Que a leva a considerar que mais vale umas horas com fome na escola, que uns dias, passados a horas lentas, com fome em casa.

Talvez se realmente existisse, ninguém se aperceberia. A invisibilidade da última fila, que, irónica, finge esconder quem não quer ser visto, de quem vê tudo. De quem deixa passar, também por ironia, uns sussurros durante um teste. De quem não pode deixar de ouvir a agonia daquele olhar vazio lá no fundo da sala, mesmo estando de costas, ao traçar uns rabiscos tornados demasiado insignificantes, por quem não os consegue ler.

                Agora, poderá ir ao bar, todas as manhãs. Por uma caridadezinha odiosa, pérfida, de quem acha que conduzir criancinhas pela mão para uma côdea branca e um copo de leite é uma revolução no apoio social das famílias, nada comparável com as filas de esfomeados nos países de terceiro mundo, aos quais só não pertencemos, estritamente, por motivos geográficos. Essas crianças não têm irmãos com fome? E pais com fome? Famílias inteiras com fome, cujos miúdos são apenas o reflexo visível, a ponta do iceberg.

                Apoio social não é caridadezinha. É garantir empregos. É baixar impostos, para garantir empregos. É, se tal for preciso, deixar falir bancos, para investir o dinheiro onde interessa, para baixar impostos, para garantir empregos. É, simplesmente, ter consciência.



terça-feira, 10 de abril de 2012

Diarreia Matutina


Escola Básica de Granda. Valença. Certa professora, entretanto substituída pelo Ministério da Educação, colocava 15 alunos do 3º e 4º anos a assistir a filmes e desenhos animados, acompanhados por uma auxiliar, durante grande parte da manhã. Os meninos começaram a ficar desassossegados, não queriam ir à escola e alguns até começaram a ser seguidos por psicólogos. Não compreendo o porquê de uma criança de 8 anos recorrer a ajuda profissional por ver bonecada a manhã toda – desconfio que, quando a professora saía da sala, a auxiliar mudava para o programa do Goucha e daquela outra arara. Aquilo deprime qualquer um. Até criancinhas.

Só considero haver uma coisa pior que pôr o futuro da pátria a ver a diarreia matutina que passa por televisão neste país. É obrigar um país inteiro a ver a incapacidade que escorre de quem, se não passa a manhã a ver o caso da avó que tentou envenenar o neto ou o último desgosto de amor da Merche Romero, é porque prefere ver a Júlia. No mesmo horário, diferente canal. Falo do Seguro. O moribundo. É certo que o homem só tem tempo para tentar maquilhar os Lellos/Socristas/Socráticos/Socratistas – seja lá o nome da enfermidade - em qualquer coisa parecida com uma bancada parlamentar. Isso e, à boa moda dos programas da manhã, responder aos telespectadores. Ou a comentadores políticos. De resto, nem se uma oposição de medidas fortes fosse coisa para calhar na Árvore das Patacas, o Sonecas tinha carisma para levar ao Parlamento. A sorte é que o António Costa está aí à espreita. Pode ser que esse veja menos televisão.