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terça-feira, 24 de abril de 2012

Gotículas parvas. Irritantes.


7:55. Corre um vento frio. Não gelado, nem cortante. Nem muito forte. Simplesmente desconfortável. Sibilante. Irritante. Que arrasta gotículas minúsculas e pretensiosas. Minúsculas e pretensiosas gotinhas que ignoram o chapéu-de-chuva. Idiotas. Incomodativas. Quase tão incomodativas como a cara das pessoas de manhã - inexpressivas. Nem tristes, nem desanimadas. Ausentes, distantes e amorfas. Resignadas com as pingas, mesmo aquelas que, por magia pagã, acertam, certeiras, entre as carnes e as vestes e deambulam vitoriosas, gelando a espinha até à alma e os ancestrais até aos tetravós.

A resignação, enquanto tiver a duração do percurso de casa ao trabalho e desde que com o tempo, é saudável. O grave é quando, para além de ser epidémica, atinge o indivíduo de forma fatal, permanente. Como é que, na mesma semana, ao mesmo tempo que nos contentamos, para o Tribunal Constitucional, com a proposta de indivíduos com falta de currículo e ligações duvidosas (cujo carácter é atestado pelo protagonismo, à vista de todos, de jogadas do clássico xico-espertismo português – cumprindo à risca a lei, mas ignorando o seu intuito), permitimos que, baseado em ideias vagas e imprecisas, se apresente um plano de reforma da Segurança Social, num momento de profunda insegurança social? Apatia face à, demasiado habitual, leviandade lisboeta. Definitivamente.

Ainda bem que Quarta-feira é 25 de Abril. Centenas de pessoas descontentes no Terreiro do Paço. Espero eu, apenas resignadas com a chuva.