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sábado, 22 de junho de 2013

Brasileiros Ingratos

É quente e cáustica e electricamente rápida a correr pelas carnes e fluidos íntimos de nós, apenas para se deixar permanecer hipócrita numa latência mesquinha de pulsar ácido. Foi uma facada, feia. Foi traição. É dor de morte. Foram muitos anos, demasiados meses, no mar, a vergar a vontade das ondas, a namorar sopros alíseos, a comer um conduto, pasta-escarreta-verde-nojo, verde de doença. A dar do corpo na barcaça e a domar, por Deus, a ideação que tropeça nuns olhos que enganam, pelo salitre das pestanas, pela carência do corpo que quer afecto, pelas noites de solidão que vão transformando o perfil bovino-suado, de cheiro caprino do Ribeiro, com o seu visco jactante pela goteira peluda das costas, numa silhueta mui pia, qual sereia, alvo de pensamentos pouco castos.

Tanta coisa para levar o Senhor, a Língua, e, acima de tudo, a Bola ao outro lado do Atlântico. Ingratos. Basta a primeira fornada consistente de uma classe média informada e consciente para sair o povo em luta pela educação e saúde em detrimento de mais betão para proteger o pelado. Degeneraram das suas raízes europeias tementes aos astros de chuteira – deve ser o lado índio, selvático.


Por cá também havia uma secção entre os muitos ricos e os muitos pobres. Emigrada, exterminada à conta de muito futebol e construção civil. Lá, no garrido das praias e das favelas, apareceu há poucos anos, mesmo com o calor, a sunga e a água de coco. Ao menos deixou-se lá sentido crítico. O que foi murchando de podre na Pátria-mãe, aflorou além-fronteiras. Ao menos o Ribeiro não foi sodomizado em vão. Menos mal.










quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Somos Pantufeiros.




Sabe demasiado bem. O ar é doce e terno. E cheira a bolo, o nosso bolo, aquele que nos acaricia ao chegar a casa, quando o corpo dói do frio áspero que tomou a rua como sua, mas que fica sempre à porta. Mas que fica sempre à espreita, lá fora, enquanto nos perdemos no regaço do sofá, naquele cantinho mais doce do mundo onde o leitinho é sempre mais morno e que transforma qualquer minuto vespertino no mais encantador soninho. É onde a almofada tem uma mancha de baba. É nosso. E é mais que isso. É a mãe a chamar para jantar porque há natas do céu ou as tardes passadas em casa da avó, a comer marmelada com bolachas, e bolachas, e marmelada. E é o natal, e o aperto no coração até à meia-noite, que não chega nunca, para ver os olhos do mais cachopo, e há papel por todo lado e sempre, sempre, mais um bolo-rei, mais um bolo. Sempre, mais uma aletria.

Somos caseirinhos, quentes, emotivos e, principalmente, pouco produtivos. Gostamos de robes e chinelos, que mantemos ao ir comprar pão ao Sr. Azevedo. Gostamos do pão do Sr. Azevedo e de saber se a Anita vai casar em Junho. Somos um país que não cabe em relatórios de contas porque os bigodes do avô não se moldam às células de um programa de somatório. Somos descontraídos. O que não ajuda no momento de pagar as contas. Absolutamente nada. Por isso estamos na miséria. Porque adoramos pantufas e ver a miudagem a jogar futebol ao pé da garagem. A norte dos Pirinéus não entendem, com os gráficos, tabelas e guias. Está tudo pago. Tudo a horas. E ainda bem. Vivem com contas tratadas, vivem e viverão bem. Mas são demasiado monótonos. Frios. Nós vamos sobrevivendo em família, com a família, com o cão, com o gato, o nosso e o da vizinha, com os amigos com quem, enquanto se espera pelo cabrito nos rimos mais um pouco da desgraça que é amar demasiado esta terra.

Que não venham em nome das metas do défice, seja lá o que isso for, exigir demasiado, sempre dos mesmos. Quando não houver dinheiro para ver o Benfica perder mais um campeonato com um pratinho de tremoços o caso muda de figura. Não se habituem a manifestações pacíficas. 






Imagem retirada de http://catedraldaluz.blogs.sapo.pt/5364.html. Acedido a 17/10/2012.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Gotículas parvas. Irritantes.


7:55. Corre um vento frio. Não gelado, nem cortante. Nem muito forte. Simplesmente desconfortável. Sibilante. Irritante. Que arrasta gotículas minúsculas e pretensiosas. Minúsculas e pretensiosas gotinhas que ignoram o chapéu-de-chuva. Idiotas. Incomodativas. Quase tão incomodativas como a cara das pessoas de manhã - inexpressivas. Nem tristes, nem desanimadas. Ausentes, distantes e amorfas. Resignadas com as pingas, mesmo aquelas que, por magia pagã, acertam, certeiras, entre as carnes e as vestes e deambulam vitoriosas, gelando a espinha até à alma e os ancestrais até aos tetravós.

A resignação, enquanto tiver a duração do percurso de casa ao trabalho e desde que com o tempo, é saudável. O grave é quando, para além de ser epidémica, atinge o indivíduo de forma fatal, permanente. Como é que, na mesma semana, ao mesmo tempo que nos contentamos, para o Tribunal Constitucional, com a proposta de indivíduos com falta de currículo e ligações duvidosas (cujo carácter é atestado pelo protagonismo, à vista de todos, de jogadas do clássico xico-espertismo português – cumprindo à risca a lei, mas ignorando o seu intuito), permitimos que, baseado em ideias vagas e imprecisas, se apresente um plano de reforma da Segurança Social, num momento de profunda insegurança social? Apatia face à, demasiado habitual, leviandade lisboeta. Definitivamente.

Ainda bem que Quarta-feira é 25 de Abril. Centenas de pessoas descontentes no Terreiro do Paço. Espero eu, apenas resignadas com a chuva.