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sábado, 3 de novembro de 2012

O Nalguedo da Gabriela


Não me lembro do dia, nem tal seria essencial, tão pouco de como chegou a conversa àquele ponto. Àquele tema. A estupefação foi tanta que as minhas maneirinhas potencialidades intelectuais permitiram-se reter uma única frase. Cinco palavras. Nem o locutor, tão pouco o local. “A Juliana Paes tem celulite”. Sabido que a discussão de pêlos, borbulhas, gordura e demais pregas afins com deficitárias cromossómicas Y é um lodaçal ingrato cujo resultado nunca é favorável para o género viril, incauto, apesar de avisado, caí no erro de me juntar à desinteligência sobre o glorioso traseiro da carioca.

                De forma geral falava-se da Gabriela. A novela. Onde a substituição de uma saloia distintíssima, Sónia Braga, por uma voluptuosa morena com cara de menina veio contribuir para renovar de súbito o interesse pelo trabalho de Jorge Amado, apesar de adaptado para acirrar o mais animalesco e suado dos sentidos.

Como, infelizmente, não sigo a patranha, dediquei-me a procurar a cena alvo de análise anatómica no Youtube. Uma missão profunda e exclusivamente antropológica. Método empírico, em que, finda a devida e seríssima análise, concluí a existência da tal gordurazinha localizada. Gordurazinha boa ou má? Estética ou um nojo? Para cortar ou exibir com orgulho?

Esse parece ser o principal problema da gordura, nos dias correm. Poucos se entendem sobre: a) a sua real existência ; b) a sua correcta localização; c) métodos para cortar a que está a mais; e principalmente; d) qual está a mais.

É a questão “d” que deverá suscitar mais dúvidas. Simplificando, banhinhas repugnantes, escandalizantes, como privatizações duvidosas, por exemplo, o caso BPN que conta já com nove mil milhões enterrados em processos incertos, ao que se acrescenta as centenas de assessores, a infinidade de institutos, organismos e fundações, com as respetivas benesses, as reformas milionárias dos altos serventes públicos, entre outras, são para abater. Outras, adiposidades estruturantes e necessárias para untar o tecido social, devem ser protegidas, acarinhadas. Prestações sociais, serviços públicos como transporte, educação e saúde, rendimentos mínimos, apoio às artes e investigação. É chicha fundamental, faz falta.

Há um problema. A forma mais difícil, demorada e eficaz de cortar a adiposidade seria uma lipoaspiração radical nos institutos, organismos e fundações. Particularmente os de alçada local. Efeito secundário? O despedimento de centenas de pessoas que o Governo, numa situação frágil como a actual, não poderia suportar. Leva antes 50% de tudo o que cada um produz, corta nas pensões e subsídios. Corta na gordura estrutural. Essencial. Porque é mais fácil. Rápido. A verdadeira celulite, essa, fica cá toda.








Imagem retirada de http://blogdewilliamporto.zip.net/arch2012-06-01_2012-06-30.html. Acedido em 03/11/2012.

sábado, 10 de março de 2012

Personalidade



Há que adorar palavras simples. Concisas. Como imbecil. Insulto apropriado para aqueles que, não sendo fracos de espírito, manifestam imbecilidade numa determinada acção. São palavras inteligíveis como a anterior que, quando ouvidas no momento certo, permitem corrigir esta ou aquela imbecilidade. O problema não é quando são usadas como insulto, até podem ter um objectivo construtivo, a agrura é quando, para a descrição completa de um indivíduo [instituição ou país], palavras como esta, imbecil, têm obrigatoriamente de figurar. O problema é quando a imbecilidade é um traço de personalidade. O grave é quando é uma característica do próprio. Ora vejamos.

Num acordo para vender um banco por 40 milhões de euros, depois de injectar 600 milhões para reforçar o capital e ceder apoios á tesouraria de 700 milhões, para além de muitas outras leviandades, é avalizado um empréstimo de 300 milhões a custo zero. A custo zero. A imbecilidade seria tanta que a Comissão Europeia chumbou o acordo. Decerto por pena. Pesar pela incapacidade patológica dos incapazes que se arrastam na capital. Para evitar criar precedentes perigosos ou por aquele sentimento constrangedor, incomodativo e fininho de ‘vergonha alheia’ que nos toca quando o magnetismo da imbecilidade do vizinho é de tal grandeza que nos vemos na obrigação de intervir.